Apesar de sentir tempestades de remorsos
A exovalhar meu peito carcomido
Eu permito ...
Deixo que derrubem esta casa
Derrubem mesmo esta casa
ela está repleta de assombrações
e visagens de outros mundos
Na velha mercearia, há um avô que faz embrulhos com jornal
e semeia botijas incontáveis pelos cantos
No quintal um tio sorridente e bondoso
lavando desesperadamente seu novo carro,
prelúdio de cópulas, concupiscências e abandonos
Na sala de visitas, um pai honesto e hostil
ensaiando eternamente um novo grito e outro flagelo
No primeiro quarto, uma avó deitada
sempre me contando estórias de amores impossíveis
Na sala de jantar, o belo espectro de minha tia
passionalmente desfalecida com sua taça de cicuta
ainda clamando o nome de seu amado
No quintal dos fundos, um outro tio
perseguindo ratos e seus queijos
pelo vácuo parasita da eternidade
Derrubem esta casa
Tijolo por tijolo
Apesar de lágrimas nos olhos
e coração maltrapilho
Eu o permito
Na copa, uma prima-tia
Completamente enlouquecida
Com sua voz rouca
e olhos arregalados
recitando-me poemas tétricos absurdos
Debaixo da cama, assustado
Um menino morcego
Espiando a rotina se arrastando pelos anos sem fim
Ainda vivo, mas insone
Lendo no escuro
Alfarrábios de tempos de outrora
Não o procurem
Deixem o menino sonhar
E voar com suas asas de crepom
pelo céu do infinito
Antes que seja tarde
E que lhe caia crucialmente
O pesado caibro de toda cruz e de toda culpa
inexistente
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
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3 comentários:
É isso aì, dá-lhe Magal, no JBF vai-se construindo boa poesia, espaço que dificcilmente se abre aos poetas aqui tem, graças ao Santo Papa Berto!
13 maio 2009 às 12:16
Eu vi, eu vi, juro que vi!
E não foi malassombro!
Nesta casa, caminhando
Deixando no chão sua sombra magra,
Como quando caminhava
Pela Ponte Buarque de Macedo,
O Poeta Augusto dos Anjos!
Parabens! Magal! Digo, Reverendo Magal!
Êi, Magal! Há muito tempo não leio um poema tão bem construído e de temática tão expressiva quanto esse A Casa da Esquina, escrito por um poeta bissexto (e de Gurabira, pois não?).
Ao Deo, lembrou o Augusto dos Anjos; a mim lembrou Luiz Guimarães Júnior… O importante é que estás bem acompanhado. E mais, o teu poema nada tem a ver com a poética dos dois vates citados. O teu é, também, original.
13 maio 2009 às 19:41
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